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Liderança e inteligência emocional
Psicólogo e Mestre em Ciência Política Ruy de Alencar Matos

A liderança é um fenômeno interpessoal e depende, para a sua manifestação, de relações de influência entre, pelo menos, dois interlocutores. 

A influência constitui um processo que combina a razão, a intuição e a emoção. Portanto, o líder não influencia apenas por seu conhecimento, mas também pelo impacto emocional que provoca em seu seguidor. Se este não aceitar, ou não absorver a influência do líder, não ocorrerá liderança. É esta aceitação por parte do seguidor, que valida a liderança, criando e mantendo a legitimidade do líder. E ela possui uma natureza fortemente emocional.

Para criar e manter a relação de liderança é necessário aprender a combinar a razão e a intuição com a emoção. Daí a importância do líder desenvolver sua inteligência emocional, para lidar com a complexidade de suas relações de liderança e, inclusive, para gerenciar suas próprias limitações, desequilíbrios e potencialidades emocionais.

Todos os 15 fatores da inteligência emocional definidos pelo psicólogo Dr. Reuven Bar-On, grande pesquisador deste tema, são importantes nas relações de liderança. Porém gostaríamos de realçar sete deles, pelo grande impacto que produzem no processo de influência interpessoal, portanto na liderança.

São eles: assertividade, independência, empatia, responsabilidade social, flexibilidade, tolerância ao stress e otimismo.

A assertividade vem da palavra italiana assero que significa afirmar. (Note que não significa acertar). A assertividade é a arte de defender o próprio espaço vital sem recuar e sem agredir o outro. 

Ser assertivo é ser pacífico sem ser passivo. Quando a pessoa se comunica com assertividade ela reforça sua autoestima, pois diz o que sente e o que pensa e, simultaneamente, gera nos outros uma atitude de maior compreensão decorrente da coragem que demonstrou ao abrir-se. Isto pode inclusive estimular outros a serem mais assertivos, criando relações mais verdadeiras no ambiente de trabalho.

Em outras palavras, assertividade é a capacidade de expressar emoções, crenças e pensamentos e de defender seus direitos de uma maneira não destrutiva. A ausência de assertividade deixa o líder à mercê de seus medos e de sua raiva. 

Quando é assertivo, o líder consegue perceber as armadilhas que o medo (de não ser aceito, de fracassar etc.) produz em seu comportamento. Se não controlar esta fragilidade emocional ele ficará inseguro, tímido, diante de pessoas e situações ameaçadoras. Por outro lado, ao exercitar a assertividade, o líder também evita os impulsos que a raiva descontrolada pode gerar. Tomado pela raiva ele poderá tornar-se arrogante, prepotente, autocrata e violento com seus interlocutores, tentando subjugá-los, ao invés de conquistá-los. 

É importante assinalar que não nascemos assertivos. Precisamos aprender a sê-lo, em nossas relações interpessoais, mantendo a autoconsciência de nossos estados emocionais para não projetar nossas fragilidades sobre os outros, perdendo, assim o controle da situação. A assertividade precisa ser treinada continuamente junto aos nossos colaboradores. Para tanto podemos firmar acordos de assertividade com eles, dando e recebendo feedback sobre nossas atitudes e comportamentos.

A independência emocional é a capacidade de demonstrar autoconfiança e de se autodirigir em pensamentos e ações, e de – mesmo considerando as sugestões dos outros – não ser emocionalmente dependente. Ora, sem o desenvolvimento desta atitude emocional, a pessoa não conseguirá liderar outras pessoas, pois estará sempre sujeita às suas manipulações.

A independência emocional é uma característica essencial ao exercício da liderança, tornando o líder, de fato, um influenciador de seus seguidores. Esta competência emocional será importante para lhe dar respaldo em situações adversas, como diante de conflitos interpessoais com outros líderes dominadores. Do contrário poderá ficar a mercê deles, deixando-se manipular ou submetendo-se a eles, por medo de perder vantagens e benefícios.

A empatia é a capacidade de colocar-se no lugar do outro, percebendo suas emoções e compreendendo seus sentimentos. É uma competência emocional nobre pois desloca o foco de interesse do líder de seus próprios problemas e objetivos pessoais para os problemas e objetivos de seus interlocutores. É uma transição do egocentrismo para o altruísmo. 

A empatia é uma atitude fundamental para o exercício da liderança cidadã e servidora, por fazer do líder um jogador essencial na armação das jogadas, aquele que “passa a bola” aos seus colegas que estão melhor situados do que ele. Um líder empático é também um coach sempre disponível a ouvir e a ajudar seus colaboradores, apoiando-os emocionalmente e orientando-os em seus trabalhos, tornando, assim, o processo produtivo mais integrado e sinérgico.

A responsabilidade social é a capacidade de demonstrar ser um membro cooperativo e construtivo e estar disposto a contribuir para a melhoria de seu grupo social. Esta competência emocional é uma expansão da empatia para as dimensões social e política. 

Curiosamente, os gregos antigos denominavam de “políticos” aqueles cidadãos que cuidavam e protegiam a sua “polis”, isto é, a cidade. Eles demonstravam amor pela coletividade à qual pertenciam e com a qual construíam a sua própria identidade. Por isso era comum usar o nome da cidade como sobrenome, ao invés de um nome de família, como usamos hoje em dia. 

Para os gregos, o contrário do “político” era o “idiótico”, isto é, aquela pessoa tão somente interessada em si mesmo, em seu “idios”, em suas idiossincrasias. Geralmente eram designados assim os comerciantes, os artesãos, pecuaristas e outros empresários, interessados tão somente no sucesso de seus negócios. 

Atualizando estas ideias para o âmbito das organizações, encontramos pessoas interessadas tão somente em suas próprias necessidades e objetivos (seu emprego e benefícios deles decorrentes) – são os idióticos organizacionais. E há aquelas outras pessoas comprometidas com o bem comum, isto é, com o cumprimento efetivo da missão da organização, que só poderá ocorrer junto à sociedade – são os políticos organizacionais (no sentido grego clássico). 

A flexibilidade é a capacidade de adaptar emoções, pensamentos e comportamentos a mudanças nas situações e condições vividas. Ao sermos flexíveis, demonstramos que podemos perceber, aceitar e assumir como nossa, 
a opinião, ideia ou posicionamento de outros como mais adequados ou aplicáveis a uma determinada situação. Esta habilidade nos torna mais adaptáveis, portanto mais competentes, para construir relações interpessoais mais sólidas e duradouras.

A liderança é um processo dinâmico de influência, pois é construído a partir da diversidade emocional de seus interlocutores, em situações que estão sempre sofrendo algum tipo de alteração em suas condições. Portanto, a flexibilidade é uma condição essencial à eficácia da liderança. Do contrário teremos a rigidez autocrática que tenta ajustar a realidade aos desejos de estabilidade e de segurança do líder inseguro ou prepotente. Mas, mesmo que o autocrata queira, não é possível bloquear o fluxo de um rio por muito tempo. Se isto for feito o que resultará será um lago estagnado e, depois de algum tempo, morto. 

A liderança imita a vida, que imita a energia: ela é fluxo e movimento. Não dá para prender a energia, assim como não dá para prender a vida, sem que ocorra o seu oposto: a morte. 

Do mesmo modo, quando a liderança perde o seu fluxo ela se transforma em autocracia e promove a morte da participação, da motivação e do comprometimento. Nesse regime de liderança inerte resta o império da força, combinado com o medo e a submissão.

A eficácia da liderança, que é relacional e situacional, depende da atitude e do comportamento flexíveis, de modo que o líder possa adaptar-se, ou até mesmo antecipar-se às mudanças. Do contrário sua influência (palavra que significa “fluir para dentro”) será enfraquecida e outro líder tomará o seu lugar, iniciando um novo ciclo de liderança.

A tolerância ao stress é a capacidade de suportar eventos adversos e situações estressantes sem esmorecer, assumindo uma postura ativa e confiante em relação à ameaça estressante. Nas relações de liderança o que nunca faltará será stress, resultante das constantes ameaças e frustrações que o líder precisará enfrentar em seu dia-a-dia. 

Sabemos que o stress não é uma doença, mas um sistema de defesa fisiológica que é mobilizado e ativado toda vez que nos sentimos ameaçados em nossa integridade biopsicossocial.

O problema surge quando este sistema de defesa é ativado exageradamente, deixando nossos “nervos à flor da pele”, devido às descargas e ao acúmulo de cortisol e adrenalina em nosso sistema sanguíneo. 

O líder, por encontrar-se em constantes situações de ameaça, precisa desenvolver maior tolerância ao stress, do contrário adoecerá. 

Temos observado, nas empresas e em organizações públicas, um crescimento de casos de doenças psicossomáticas, tais como gastrite, úlcera, psoríase, enxaqueca, dor na coluna, insônia, distúrbios digestivos, obesidade, tabagismo, alcoolismo, entre tantas outras doenças que vêm atormentando tanto gestores quanto empregados. 

Além dos prejuízos à qualidade de vida, o custo financeiro destas enfermidades é muito grande, traduzindo-se em absenteísmo, por pedidos de afastamento para tratamento de saúde. Mas também por baixa produtividade de quem se mantém no expediente de trabalho apenas fisicamente, desmotivado e descomprometido com o que faz, ilustrando os célebres casos de “presenteísmo”, comportamento que vem aumentando ultimamente em nossas organizações.

O líder precisa encontrar tempo para aprender a criar defesas e maior tolerância às situações estressantes, tais como fazendo psicoterapia, praticando yoga, meditação, relaxamento, artes marciais, exercícios físicos, dança, música ou qualquer outra modalidade de arte, esporte e lazer, para equilibrar-se emocionalmente. 

O otimismo é a capacidade de ver o lado bom da vida e de manter uma atitude positiva, mesmo diante de adversidades. O líder é também um modelo, influenciando seus seguidores, não apenas pelo que diz ou faz, mas também pelo que “é”. O otimismo é uma forma de “ser”. 

Em contraposição ao pessimista, que só vê desgraça e ao ingênuo (complexo de Peter Pan ou Pollyanna) que só vê graça, o otimista reconhece as dificuldades da situação, as ameaças e os problemas que enfrenta, porém ele realça o outro lado da situação, onde estão as oportunidades, os talentos e as potencialidades. 

O otimismo é uma força motivadora muito relevante que o líder pode utilizar para tornar seu ambiente de trabalho mais positivo e com isto obter processos de trabalho mais ágeis, decisões mais eficazes e colaboradores mais empenhados em realizar o melhor possível para seus clientes. 

Além disso, mantendo uma atitude otimista, o líder poderá promover um ambiente com melhor qualidade vida para todos e, assim, concentrar mais energia realizadora para estabelecer e alcançar objetivos e metas mais arrojadas, construindo, com sua influência, um futuro mais promissor. 

 

CONCLUSÃO 

A liderança constitui um fenômeno intimamente dependente das emoções. Mesmo que o poder da argumentação racional, ou o brilho da intuição sejam fatores também muito importantes, sem o concurso das emoções, seria impossível estabelecer as relações de influência que caracterizam a liderança. 

Neste sentido, a eficácia do líder está fundamentada em sua competência para lidar com suas próprias emoções e com as emoções de seus interlocutores, criando neles a necessária aceitação de sua ascendência de modo mais natural e fluido. Esta é a base da legitimidade tão requerida e valorizada nos líderes da atualidade.

 

Material criado e fornecido pelo Ruy de Alencar Matos para o Diário do Palestrante da Base SA. 

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